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Literalmente ferrados – Triste sina

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Não se pode admitir que em tempos modernos, de tecnologia, de tantos conhecimentos, trafeguem pelas ruas das grandes cidades, carroças puxadas por eqüinos e muares, conduzidos por seres irresponsáveis, imprudentes, cruéis e impiedosos, em trânsito intenso, obrigando-os a se compatibilizarem com o movimento, em meio aos ruídos de motores e de buzinas.

Há séculos os animais de carga são submetidos à exploração desumana. Porém, atualmente, esta situação vem tomando proporções assustadoras. Só em Porto Alegre, capital gaúcha, a estimativa é deque circulem, diariamente, oito mil carroças, que lhe confere o honroso título de a Capital das carroças, para a alegria e orgulho dos políticos locais. Como pode tanta insensatez?

Mesmo com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, estabelecida pela Unesco, há 30 anos, da qual o Brasil faz parte, a grande certeza que permanece é a de que nada mudou, que os animais continuarão desamparados pelas leis, vítimas da impunidade, da ignorância e do descaso das autoridades.

A alegação desses pigmeus emocionais é a mesma de sempre, a de que se trata de um meio de sobrevivência dos mais pobres, dos injustiçados, dos excluídos, dos miseráveis. Não se justifica, no entanto, confundir desigualdade social e ignorância, com safadeza, frieza e sadismo. Quando os condutores são questionados sobre o porquê desses destemperos emocionais, chegam a dizer, ironicamente, que só apanha quem merece, quem é desobediente, preguiçoso e recusa a realizar o serviço.

Para quem vê este tipo de conduta é triste, melancólico, porque dá para perceber, claramente, que não são desobedientes. É que muitos já não respondem mais aos comandos por causa da idade, do cansaço, da fraqueza, das costelas salientes, da anemia profunda e da extenuação, frente às cargas excessivas a que são submetidos, por longo período. Muitos são mal alimentados, mal ferrados, carentes de cuidados veterinários, andam com dificuldades, mancam devido às infecções nas patas, agravadas pela escaldante temperatura do asfalto. Alguns, pela tortura do espancamento e dos ferimentos expostos no lombo e no pescoço pelos contínuos açoites, chegam a se curvar, a tombar, a desmaiar, tamanha a exaustão. Parte dessas carroças está sob o comando de marmanjões, de pivetes, de certos vagabundos, inconseqüentes, drogados.

Nas instâncias turísticas, esses animais chegam a trabalhar enquanto houver a luz do dia, sob a indiferença dos turistas e a do seu próprio dono. Não lhes sobra tempo para comer, para saciar a sede e repor as energias. A sina desses animais é muito cruel mesmo, não há reconhecimento pelos seus serviços prestados, nunca vão desfrutar livremente de gramados verdes e de sombra e água fresca, como recompensa pelo seu esforço incomum. Quando incapacitado, depois de longo período de escravidão, os matadouros os aguardam, onde serão executadas pelos métodos mais chocantes. 

Isto é um panorama que se vê no Brasil, onde as leis dos crimes ambientais são ignoradas. Não há a adoção de medidas sérias, como determina o Código Nacional de Trânsito. Não há um sistema de cadastro para todos os animais de tração, nem emplacamento e sinalização das carroças, requisitos básicos para uma fiscalização eficiente, de estímulo às denúncias de atrocidades. Nem se faz com rigor a verificação se o animal tem condições físicas adequadas e se o condutor tem habilidade e condições psíquicas para o exercício, como se faz para qualificar os motoristas. Nada mais justo exigir que o carroceiro tenha sua licença, a sua carteira de habilitação e fique sujeito às penas da lei e pague, devidamente, pela infração cometida.

Está na hora de acordar, caros vereadores, deputados, prefeitos e governadores, de respeitar os seres que não têm como pedir respeito e direitos. Sentimentos de dor, de fome, de sede e de fraqueza, não são exclusivos da espécie humana. Esses animais não são meros autômatos mecânicos, como insinuava Descartes.

Abrace esta causa. Não basta somente ter pena, isto não alivia o sofrimento dos motores de carne e osso. Ter pena não resolve, não penaliza ninguém. Os que se omitem, ignoram ou assistem impassíveis as cenas trágicas, na verdade são coniventes.

Pressione as autoridades, ajudando os protetores, para que as leis sejam aperfeiçoadas e cumpridas, no sentido de coibir as barbáries e disciplinar o trânsito. Faça valer os direitos dos animais e o seu direito e dever de cidadão do bem, que respeita a natureza.

 

JOÃO O. SALVADOR é biólogo

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