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Pau que nasce torto

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É indubitável que um coração bondoso sofra com a existência dos despidos de amor, de respeito, de sentimentos, e que ainda se julgam criados à imagem e à semelhança de Deus. Esse coração é penalizado pela conduta desumana, a dos verdadeiros pigmeus emocionais, que cultuam a maldade, a frieza e estupidez de seus atos, que, na ânsia do poder, da determinação competitiva e corporativista, expõem os sentimentos sádicos dos delírios múltiplos, gozadores do sofrimento alheio.

Muitos, por questão de índole adquirida, maltratam, discriminam, lesam, e ignoram que a incitação à violência pode induzir seus descendentes a fazer o mesmo com seus próprios semelhantes e com outras espécies da criação divina, convertendo-se em perfeitos marginais, de friezas sentimentais.

Pensando bem, a única solução para um pau que nasce torto e que vai morrer retorcido, engruvinhado e ressequido, indubitavelmente, é cortar o mal pela raiz, investindo em suas “mudinhas vicejantes”, as do mundo infantil, ao ensinar-lhes que respeitem seu próprio ambiente domiciliar, porém dentro de condições adequadas, que lhes permitam adquirir o caráter, a personalidade e a estrutura de vida.

Uma família organizada forma descendentes organizados, cidadãos que gozam dos direitos constitucionais e respeitam as liberdades democráticas. Uma criança que se desenvolve em ambiente fraterno aprende a respeitar e a cultuar a benevolência, porque transcende nela, obviamente, a calma interior pela simples observação da manifestação de exuberância do carinho, da cumplicidade, do respeito, da humildade. É o amor que gera tudo isso, aquele que perdoa, zera as diferenças, a fraqueza e imperfeições humanas. A esse ponto, a felicidade deixa de ser uma obrigação para tornar-se um prazer, um costume nobre.

Estudantes, o amor é humilde demais para o gosto de muitos adultos, cultos e egoístas, que nem se atinam sobre seu grande poder mágico, que age sob a verdadeira construção do desejo deve sobreviver sob pressão de uma palavra pequena, mas cheia de perigo: o ódio, que mata a iniciativa, a criatividade, a compaixão, os sonhos e a esperança. Quem é feliz jamais será agressivo, pois a felicidade deixa as pessoas dóceis, amáveis, compreensíveis pelos seus gestos e atitudes, mas é coisa de gente grande, de espírito evoluído, de finos propósitos cósmicos.

A depressão é uma doença da moda somente porque uma sociedade decidiu ser feliz à sua maneira, a qualquer custo. Se o dinheiro pode comprar o bem-estar, a felicidade, no entanto, jamais. Ela não tem preço, nem pressa, nem tampouco a encontramos no boteco da esquina, nas bocas de fumo, nas drogarias, nas mãos de traficantes.

Em países ricos, como a França, são consumidas grandes quantidades de antidepressivos, porque, na verdade, ninguém mais quer ter o direito ou dever de sofrer, e acaba padecendo o dobro pela pós-euforia, pelo pesadelo da ressaca medicamentosa, pela dependência química, que comprometem as funções hepáticas.

Vivemos num planeta onde a crueldade é algo que está presente em famílias humanas por incontáveis eras. A relação do homem com a natureza, inclusive, continua cada vez mais tensa, conflituosa, quando ele deveria respeitá-la como parte integrante de sua própria existência. A natureza já se encontra pálida, febril, nem sabe se chora, estanca suas as lágrimas, ou ri do absurdo especismo humano, do antropocentrismo exacerbado.

Cabe, sim, aos mais evoluídos, de maior maturidade espiritual, usar melhor a inteligência, bradar e agir por mudanças profundas pela formação de cidadãos do bem, da luz, da paz. Ninguém é feliz sozinho. Há que respeitar e conviver em harmonia com os semelhantes e assemelhados, e os mais sensíveis, os que mais se machucam com as injustiças, devem se ajustar ao reconhecerem a importância de seu aprendizado e de não permitir que os prepotentes se tornem felizes pela arrogância, insignificância, comodismo e patifaria.

Lembre-se que sempre é bom expressar a sensibilidade, as emoções, como uma maneira de avaliar os momentos felizes, propícios para a reflexão. O afeto que se cultiva é perene, jamais se desvanece e só transfere amor quem já o teve e o cultivou, que o acatou como marca registrada da coerência, da honestidade, da sensatez e bondade.

 

JOÃO O. SALVADOR é biólogo do Cena

 (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) – USP

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 22/08/08

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